
Recentemente, publicamos um texto sobre segurança psicológica no trabalho aqui no nosso blog. Mas como o assunto é bastante extenso e pertinente, resolvemos fazer uma parte 2. Se você se interessa pelo assunto, leia o primeiro texto clicando aqui!
Para o segundo texto, nós queremos trazer dicas mais práticas sobre rituais que os líderes podem implementar para gerar mais segurança psicológica para suas equipes de trabalho.
Mas antes de falar de atitudes práticas, vamos entender o que é (e o que não é) segurança psicológica.
O que é segurança psicológica
Segurança psicológica é quando todos na empresa se sentem à vontade para compartilhar suas opiniões, exercitando a sua criatividade e oferecendo o seu repertório para contribuir com as soluções.
Além de ser importante para o desempenho das equipes no dia a dia, pois as discussões são mais ricas quando todos participam, a segurança psicológica é fundamental para uma boa saúde mental dos colaboradores. Já em um ambiente psicologicamente inseguro, as pessoas têm medo de compartilhar opiniões e fornecer ideias, pois existe um grande receio das consequências. Elas têm medo de serem mal interpretadas ou julgadas pelos colegas e pelas lideranças.
No livro A Organização Sem Medo, principal obra sobre o tema, a pesquisadora de Harvard e autora Amy C. Edmondson fala sobre um cenário que torna urgente a discussão sobre segurança psicológica no trabalho:
“Pessoas instruídas, qualificadas e bem-intencionadas podem nem sempre contribuir com o que sabem em um momento crítico no trabalho, (…). Para que o trabalho intelectual floresça, o local onde se trabalha deve fazer as pessoas se sentirem capazes de compartilhar seu conhecimento. Isso significa compartilhar preocupações, questões, erros e ideias malformadas. Hoje, em muitos locais de trabalho, as pessoas estão se travando com muita frequência – relutantes em dizer ou perguntar algo que possa de alguma forma fazê-los parecer desqualificados.”
Nesse cenário, a falta de segurança psicológica – essa relutância para falar – impede que um profissional altamente qualificado possa exercer suas funções em sua máxima capacidade.
Você já esteve em uma reunião na qual teve uma ideia mas não quis verbalizar? Você pensou em diversas possíveis reações contrárias à sua fala e acabou desistindo de sugerir algo? Essa é uma situação clássica de um ambiente sem segurança psicológica e isso pode estar afetando a sua equipe.
Se os seus liderados não se sentem à vontade para dar opiniões e ideias, o potencial de inovação do seu time está bastante limitado.

Medo de compartilhar opiniões e fornecer ideias.
O que não é segurança psicológica
É importante também ressaltar que um ambiente com segurança psicológica não faz com que todas as opiniões e ideias sejam aceitas. Não significa que as falas das pessoas estejam livres de julgamentos, discussões e rejeições.
Aqui, novamente, trazemos um trecho do livro A Organização Sem Medo:
“Segurança psicológica não é imunidade às consequências, tampouco é um estado de autoestima elevada. Em locais de trabalho psicologicamente seguros, pessoas sabem que podem falhar, podem receber comentários relativos a seu desempenho que digam que elas não estão atingindo as expectativas e podem perder seu emprego devido a mudanças no ambiente da indústria ou até mesmo à falta de competência em sua função. Esses atributos do local de trabalho moderno dificilmente desaparecerão tão cedo. Todavia, em um local de trabalho seguro, pessoas não são impedidas pelo medo interpessoal, elas se sentem dispostas e capazes de aceitar os riscos inerentes da franqueza. Temem restringir sua total participação mais do que temem compartilhar uma ideia potencialmente sensível, ameaçadora ou errada.”
Segurança Psicológica, portanto, não é um “país das maravilhas” ou um “mundo de Poliana”, onde tudo é lindo e todos se amam. É um local onde as pessoas têm liberdade para falar e onde o debate é incentivado. Em uma empresa com segurança psicológica, todos se sentem à vontade para expressar suas ideias, mas devem estar preparados para os questionamentos e opiniões contrários a estas.
A lógica é simples: se os colaboradores são incentivados a compartilhar opiniões, eles irão querer expressar suas opiniões a respeito da ideia de um colega ou líder. Assim, em um local com segurança psicológica, há muitos atritos de ideias e isso é positivo para a performance do grupo. Quando várias pessoas pensam sobre um mesmo assunto, mais pontos de vista são analisados e mais refinada a ideia fica.
Um alerta para os líderes
Nesse contexto, fica um alerta para os líderes: você precisa se desarmar da ideia de não poder ser questionado, de que a sua opinião é soberana e que você sabe mais sobre tudo que todos da equipe. Ao criar um ambiente com segurança psicológica, você estará encorajando o seu time a ter um olhar crítico sobre as suas decisões. Líder, implementar segurança psicológica para o seu time vai gerar impactos no seu trabalho e pode tirar você da zona de conforto. Ao mesmo tempo, vai lhe ajudar a atingir resultados impressionantes com o seu time e aumentar a maturidade das relações.
Esteja aberto aos diferentes pontos de vista e aos questionamentos. Acredite que as ideias da sua equipe podem ser muito valiosas e que, às vezes, você pode estar equivocado sobre determinado tema.
A segurança psicológica pode ser desconfortável em alguns momentos, mas o bônus é muito maior que o ônus: equipes seguras são mais inovadoras, engajadas e conseguem trabalhar de forma colaborativa. Tudo isso potencializa muito o desempenho e os resultados.

Esteja aberto aos questionamentos.
Rituais para gerar segurança psicológica no trabalho
Se mesmo após esse alerta, você, líder, deseja criar um ambiente com segurança psicológica para o seu time, chegamos na parte prática do texto!
Você é o principal responsável por implementar mudanças para gerar segurança psicológica no trabalho, isso porque, você é o maior influenciador do comportamento de sua equipe e suas decisões e comportamentos alimentam – ou não – a cultura organizacional vigente. O líder é uma figura central na organização e serve como modelo para o comportamento esperado; tem influência na formulação de políticas e práticas organizacionais; conduz feedbacks e reuniões, que são excelentes oportunidades para fomentar a segurança psicológica.
Dito isso, veja algumas atitudes fundamentais:
- Crie um ambiente colaborativo
- Saiba tolerar erros
- Encoraje as pessoas a se arriscarem
- Seja mais vulnerável
- Esteja aberto a críticas
- Inclua a equipe na tomada de decisões
Além dessas mudanças de postura muito positivas, nós trouxemos alguns rituais para você implementar na rotina do time que, quando bem executados, irão dar mais segurança psicológica para a sua equipe.
Condução de reuniões
As reuniões são um momento clássico no qual a insegurança psicológica no trabalho se manifesta, por isso é importante tomar atitudes para prevenir isso.
O primeiro passo para promover uma reunião com potencial para a criação de um espaço psicologicamente seguro é planejar a reunião. Antes de enviar o convite, pense sobre o objetivo que você quer atingir com esse encontro (isso lhe ajudará a decidir, inclusive, se essa reunião é mesmo necessária ou se o assunto pode ser resolvido de uma forma mais eficiente e econômica).
Ciente do objetivo, você poderá pensar quem são as pessoas que realmente precisam estar presentes na reunião. Lembre-se: se a pessoa está convidada para a reunião é porque ela é importante para a tomada de decisão e o atingimento do objetivo. Sendo assim, todos os convidados merecem ser tratados com igualdade e terem suas vozes valorizadas.
Com essas informações em mãos, prepare o convite da reunião, de forma a deixar os convidados cientes do assunto a ser tratado e de todas as informações que eles precisam preparar previamente para que a reunião seja o mais produtiva possível e não gere surpresas desagradáveis!
Após a preparação, vamos ver algumas boas práticas para o momento da reunião.
Check-in
É realizado no início para saber como as pessoas estão chegando na reunião (emoções, sentimentos, preocupações, etc.). Não é um momento para o facilitador da reunião falar sozinho – como uma introdução de pauta -, mas sim uma oportunidade de troca e conexão, para que as pessoas realmente se assentem na reunião, de corpo e alma.
Exemplos de check-in que utilizamos frequentemente na Somar Pessoas:
- Uma imagem vale mais que mil palavras: pedir que escolham uma imagem que represente como estão chegando no encontro;
- % de presença: pedir que as pessoas informem o quão presentes estão realmente na reunião (e quanto estão com a cabeça em outras preocupações);
- Previsão do tempo: pedir que as pessoas descrevam o seu “clima interno”;
- Coisa boa ou novidade: pedir que cada participante conte, antes de entrar no tema da reunião, uma coisa boa que aconteceu em sua vida ou uma novidade – pode ser de qualquer área da vida.
Durante a reunião
Ao longo da reunião é importante olhar para o envolvimento dos participantes. Quando você perceber que o grupo não está sintonizado ou está com dificuldades de “pousar” na reunião, pode propor que todos se levantem e façam movimentos corporais, por exemplo, ou oferecer alguns minutos para que eles enderecem demandas urgentes e possam redirecionar sua atenção à reunião.
Além disso, é importante que o facilitador da reunião garanta que todos os presentes tenham igual espaço de fala e oportunidade de serem ouvidos. Faça rodadas de perguntas incentivando todos a falarem: Qual a sua visão sobre tal assunto? Isso dá igualdade de voz a todos.
Check-out
Corresponde aos momentos finais do encontro, no qual o líder solicita um feedback da reunião. Experimente perguntas como: Por que foi bom? O que não funcionou tão bem? O que esperamos dos próximos passos?
Você pode relatar dificuldades superadas, lições aprendidas e questionar sobre o sentimento de cada um ao final.
Além de gerar reuniões mais produtivas e com uma maior participação dos presentes, essas técnicas, aos poucos, irão encorajar os colaboradores a expressarem suas opiniões em outros momentos dentro da empresa.
Roda de Conversa
A Roda de Conversa é um método utilizado em vários âmbitos para promover momentos de diálogo franco e livre. Cada integrante deve ter a oportunidade de expressar o que pensa e não existe nenhuma figura de autoridade ou hierarquia. Os participantes são dispostos em formato de círculo e todos estão em nível de igualdade.
Dentro do ambiente organizacional, as Rodas de Conversa já são utilizadas para tratar de temas como segurança do trabalho, saúde mental e outros assuntos que se conectam com a empresa. Porém, a partir desse método pode-se provocar a discussão sobre qualquer tema.

Roda de conversa.
É preciso definir um tema para cada encontro, podendo ser séries, livros, esportes, culinária, entre diversos outros assuntos; convocar os participantes e estimular a conversa. Todos devem falar sobre o tema, na medida em que se sentirem à vontade.
O grande pulo do gato aqui é a mudança de assuntos, pois cada participante vai se identificar melhor com algum tema e assim terá vontade de falar sobre algo que domina ou se interessa mais. A prática contribui para a segurança psicológica na medida em que a pressão da fala diminui, já que não se tratam de assuntos de trabalho. Porém, ao falar de outros temas com os colegas de trabalho, o colaborador se sentirá mais à vontade para dar a sua opinião nas reuniões de trabalho, pois já estará familiarizado com aquelas pessoas.
Na roda de conversa pode-se usar a técnica de cronometrar o tempo de fala, dando o mesmo espaço para todos expressarem sua opinião, sentimento ou principal aprendizado sobre determinado assunto. Isso é muito importante para garantir que as pessoas que têm o perfil mais extrovertido não dominem as conversas e para que as que têm perfil mais introvertido não se sintam acuadas.
Essa também é uma ótima ferramenta para criar um vínculo entre o grupo e estimular o trabalho em equipe.
One-on-one
A técnica 1 a 1, ou “one-on-one”, é uma prática comum em gestão de equipes, na qual um líder se encontra individualmente com cada membro da equipe para discutir questões específicas, fornecer feedback, estabelecer metas e promover a comunicação aberta. Essas reuniões individuais são uma oportunidade para construir relacionamentos mais sólidos entre o líder e os membros do time, permitindo uma troca mais profunda e pessoal.
Veja como a técnica contribui para a segurança psicológica:
- Comunicação aberta: durante as reuniões individuais, os membros da equipe têm a oportunidade de expressar suas preocupações, compartilhar ideias e discutir desafios sem a pressão de um ambiente de grupo. Isso incentiva a honestidade e a transparência, promovendo um clima de confiança;
- Feedback claro e direcionado: as conversas individuais permitem que os líderes forneçam feedback personalizado e direcionado ao desenvolvimento daquele colaborador. Isso ajuda a melhorar o desempenho dos membros da equipe, sem expô-los ao julgamento público, fortalecendo a confiança e a segurança psicológica. Além disso, também abre espaço para que o colaborador exponha suas opiniões, dúvidas e dificuldades, criando uma via de mão dupla para a construção de um relacionamento mais profundo;
- Desenvolvimento individual: ao abordar metas e objetivos individuais durante as reuniões 1 a 1, os líderes podem demonstrar um interesse genuíno no desenvolvimento e no bem-estar de cada membro da equipe. Isso contribui para um ambiente no qual os colaboradores se sentem apoiados em seu crescimento profissional e pessoal;
- Resolução de conflitos: a técnica também oferece um espaço seguro para discutir conflitos interpessoais ou questões sensíveis que podem afetar a dinâmica da equipe. Abordar esses problemas individualmente pode evitar a escalada de conflitos e promover uma resolução mais eficaz.
Em resumo, a técnica 1 a 1 é uma ferramenta valiosa para promover a segurança psicológica em equipes de trabalho, criando um espaço onde os membros se sintam ouvidos, apoiados e capazes de contribuir de maneira significativa para o sucesso do grupo.
Dupla de pensamento
Dupla de pensamento é um método de escuta do Thinking Environment em que duas pessoas, com a mesma quantidade de tempo cada uma, pensam em voz alta sobre tópicos importantes para elas.
A regra é simples e ao mesmo tempo difícil: não se deve falar, perguntar ou comentar nada enquanto o outro estiver pensando/falando. Não basta não interromper verbalmente, é importante não interromper mentalmente e focar no que o outro diz. É uma técnica para praticar a atenção e interesse genuínos.
Dessa forma, exercita-se dois componentes essenciais para a segurança psicológica: liberdade para expressar ideias e a capacidade de ouvir antes de emitir opiniões.
Rituais de comemoração
Ao pensar em rituais que aumentam a segurança psicológica, é importante considerar alguns rituais de comemoração comuns nas empresas. Esses rituais não apenas celebram conquistas, mas também fortalecem os laços entre os membros da equipe, promovendo um ambiente de trabalho mais positivo e integrado.
São eles: aniversários, reuniões de reconhecimento, Happy Hours ou Coffee Breaks temáticos, Team Building e celebração de atingimento de metas.
Através desses rituais cria-se uma cultura positiva, celebrando conquistas e promovendo a conexão entre os membros da equipe.
Líder, a necessidade de segurança psicológica no trabalho é imediata!
A falta de segurança psicológica no trabalho vai minando os times aos poucos. Os profissionais se sentem desvalorizados, o engajamento diminui e a qualidade do trabalho em equipe despenca. Tudo isso prejudica os resultados, têm efeitos negativos para a saúde mental dos colaboradores e aumenta a rotatividade.
Todos esses problemas podem se agravar se atitudes não forem tomadas agora.
Os rituais sobre os quais falamos acima, podem ser implementados imediatamente e os seus efeitos sobre a segurança psicológica do time poderão ser percebidos em pouco tempo.
Se você precisa de uma ajuda especializada para colocar esses rituais em prática, venha conversar conosco! Nós já realizamos trabalhos nesse sentido para inúmeras organizações e também podemos auxiliar a sua empresa nesse caminho muito recompensador até a segurança psicológica.